Eu estava saindo para o trabalho, ouvindo vocês falarem sobre misericórdia, e me fez lembrar de uma experiência muito forte que vivi no último sábado. Foi uma dessas situações em que Deus não apenas fala sobre um assunto, mas faz a gente passar por ele, sentir o peso dele e, se necessário, ser corrigido diante dos próprios olhos.
Naquele dia, um amigo meu foi lá para casa. O primo da minha esposa também estava conosco. Nós saímos para comer num restaurante que fica em frente de casa, e minha esposa foi junto. Como acontece tantas vezes, a conversa entrou em temas espirituais. Começamos a falar da Bíblia, do que Deus diz, de pecado, de caminho, dessas coisas que, quando tocam em áreas sensíveis, logo revelam o que realmente está no coração de cada um.

Os dois já tinham alguma noção da Palavra, mas muito por cima. Eu já tinha conversado com eles outras vezes. Talvez justamente por isso, por achar que já tinha explicado antes, por sentir que eles continuavam sem entender, fui ficando impaciente. Hoje vejo com clareza que, naquele momento, eu já estava sem misericórdia. Eu ainda falava da verdade, mas já não falava com amor.
Então me irritei.
Falei duro. Apontei o dedo. Disse que eles só falavam besteira, que não era assim que estava escrito, que defendiam certas coisas porque amavam o pecado e queriam continuar vivendo daquele jeito. Em vez de corrigir com misericórdia, eu julguei. Em vez de servir como ponte, virei pedra de tropeço. Fiz exatamente o que a Palavra não me manda fazer.
Na mesma hora, pouco depois, aquilo já começou a me incomodar. Minha esposa logo me corrigiu, disse que não era assim, e eu fui sentindo o peso da minha atitude. Voltamos para casa, e aquela sensação ruim ficou comigo. Não era paz. Era a consciência me dizendo que eu tinha falado de Deus do jeito errado.
Mais ou menos uma hora depois, recebi uma ligação no celular.
Era um número desconhecido. Achei que fosse spam. Atendi mesmo assim. A pessoa do outro lado me chamou pelo nome e disse que já fazia dois anos que estavam orando por mim, que queriam falar um pouco comigo e fazer uma oração. Aquilo soou estranho demais. Na mesa estávamos eu, minha esposa, meu amigo e o primo dela, e como todos acharam aquilo meio esquisito, botei no alto-falante para ouvirem também. A reação inicial foi de desconfiança. Parecia golpe, trote, qualquer coisa assim. Desligaram.
Mas aquilo ficou me incomodando.
Liguei de volta. Perguntei o nome do homem.
Ele respondeu:
— Meu nome é Jesus.
Na hora eu até ri.
— Sério? Seu nome é Jesus?
Ele disse que sim. Depois pediu que eu escolhesse um número de um a dez. Eu ainda estava desconfiado e falei que não escolheria número nenhum. Então ele disse que escolheria por mim. Escolheu. Leu um versículo. E foi ali que Deus me pegou de um jeito que eu nunca mais esqueci.
O versículo escolhido era Isaias 58:9, que fala sobre apontar o dedo.
Na mesma hora, entendi. Deus estava me corrigindo. Não de forma genérica, não com uma palavra ampla demais, mas exatamente em cima do que eu tinha acabado de fazer no restaurante. Eu tinha apontado o dedo. Eu tinha me colocado acima deles. Eu tinha falado da verdade sem o espírito da verdade. E ali, no meio da minha própria casa, com aquelas mesmas pessoas ouvindo, Deus usou um desconhecido para me confrontar por meio da Palavra.
Depois disso, aquele homem ainda orou por mim e desligou.
O que ficou foi um silêncio cheio da presença de Deus.
Aquilo foi muito forte para mim. Porque eu percebi o cuidado de Deus se mostrando ali, de modo muito claro. Mas não foi só comigo. Meus amigos também viram. Para um deles, foi a primeira experiência marcante com Deus. Para o primo da minha esposa, então, aquilo teve um peso ainda maior, porque ele vivia dizendo que Deus não falava com ele, que Deus não o via, que nunca tinha uma experiência real, que continuava pecando porque não via resposta do céu. E justamente naquele contexto Deus se mostrou, me corrigindo e, ao mesmo tempo, se revelando para ele.
Também havia ali o meu outro amigo, que já tinha falado coisas muito pesadas sobre si mesmo. Em algum momento da conversa no restaurante, ele tinha dito que morreria no inferno por ser quem era. E eu ainda tentei dizer a ele que não era assim, que Deus perdoa, que o simples fato de ele estar ali, sentado à mesa conosco, falando sobre Deus, já era um sinal do cuidado do Senhor sobre a vida dele. Só que, por eu ter misturado isso com dureza e falta de misericórdia, minhas palavras perderam força. Então Deus, na Sua bondade, decidiu confirmar Ele mesmo aquilo que eu não soube transmitir do jeito certo.
Uma hora depois, veio aquela ligação.
Foi como um tapa santo no rosto de todos nós. Deus estava dizendo: “Sim, eu vejo. Sim, eu me importo. Sim, eu corrijo. Sim, eu cuido. Sim, eu falo.”
Naquele dia, eu entendi que eu estava sendo um fariseu. Achava que, por conhecer mais da Palavra do que eles, tinha licença para corrigi-los daquele jeito. No fundo, havia até amor em mim, porque eu realmente não queria vê-los perdidos. Mas havia um amor deformado pela impaciência, pela arrogância e pela falta de misericórdia. Eu queria corrigir sem antes me lembrar de que também sou alguém que precisa ser corrigido.
E Deus, na Sua bondade, não deixou aquilo passar.
O que mais me marca nessa história é que o Senhor não apenas me mostrou meu erro. Ele também cuidou de não desperdiçar aquele momento. Usou a minha falha para corrigir a mim e, ao mesmo tempo, se revelar aos que estavam comigo. O que poderia ter terminado como apenas uma refeição pesada e um constrangimento entre amigos se transformou numa intervenção do céu.
Desde então, ficou muito claro para mim que não basta conhecer a verdade. É preciso carregar a misericórdia junto com ela. Sem amor, até a correção certa pode se tornar errada. Sem misericórdia, a verdade pode ser usada como arma em vez de remédio. E foi exatamente isso que Deus tratou comigo.
Naquele sábado, eu aprendi que a misericórdia não é um detalhe da fé. Ela é parte do próprio caráter de Cristo em nós. E, quando falta misericórdia, a nossa boca até pode falar de Deus, mas já não fala como Deus falaria.
Por isso nunca mais esqueci daquela noite.
Eu achava que estava corrigindo meus amigos. Mas era eu quem precisava ser corrigido primeiro.
E Deus, com uma precisão que só Ele tem, me alcançou antes que eu ferisse ainda mais quem eu dizia amar.
